O Processamento Mental da Covid-19


No séc. XXI e no meio ocidental, o ser humano existe numa conjuntura económica global, que pauta condutas, acções, percursos de vida e emoções subjacentes a uma vida movimentada em permanente evolução e mutação. O papel activo é de todos, porque a sociedade assim o exige: as crianças vão para a escola desde cedo, porque as mães e os pais trabalham fora de casa, fazendo juz ao necessário para o sustento da família, e os avós, por sua vez, são muitas das vezes o suporte necessário para colmatar a falta de tempo dos progenitores. São muitas vezes eles que levam as crianças à escola, às actividades desportivas e que asseguram grande parte da dinâmica e logística familiar, em muitas frentes de necessidade. 

 

Sabendo nós que o ser humano é de hábitos, não é difícil concluirmos que estamos focados na acção permanente como forma de existirmos. Desde cedo, na entrada por vezes precoce em sistemas formatados de aprendizagem e desenvolvimento, até ao final do ciclo de vida, passando por todas as fases, mas sempre subjacentes ao movimento, à evolução, à aprendizagem. Muitas vezes, neste constante e imperativo fio condutor, desaprendemos até de parar e olhar para nós, tornando-se essa a falta mor que a modernidade nos ofereceu. 

Neste momento, e na sequência do covid-19, o que é posto em causa acompanha todas estas dimensões do ser humano. O que nos foi inicialmente pedido, em termos de segurança e combate à doença, foi essencialmente Isolamento, incluindo familiar, e distância física. Em termos de gestão de stress e capacidade de acção, a exigência tem sido enorme, pois toda a realidade do momento se afasta do que conhecemos, tornando a actualidade numa fonte de alguma insegurança e medo, capaz de nos trazer desconforto, incerteza, necessidade de reorganização. 

O requisito que nos tem sido pedido é por isso exigente. O que nos solicitam, em nome da saúde pública, é uma grande adaptação e um desafio à nossa capacidade de mudança, pela nossa segurança e em nome de todos nós. 

Sabemos que é difícil, por isso estamos ao seu lado, disponíveis: para ajudar a normalizar o inevitável impacto interno, desta profunda e necessária mudança. 

 

As diversas fases da vida 

A pandemia não afecta de igual forma todas as idades. Devido a isso, tentaremos explicitar algumas especificidades, com vista a um melhor entendimento e adaptação de cada faixa etária. Começando com as crianças em idade escolar, sabemos que as mesmas têm sido muito afectadas por esta situação. O seu ritmo foi abruptamente quebrado devido à medida do fecho das escolas a partir de dia 16 de Março, com poucas alterações até à data presente. 

Crianças 

O ensino à distância é um desafio fechado e com interacções limitadas, muito pouco positivo quando o foco é o desenvolvimento e aprendizagem. Na prática, há uma transmissão de conteúdos objectivos, sem corpo e sem cheiro, que a criança apreende mecanicamente, se conseguir estar atenta ao que se passa. Os pais, por sua vez, são chamados a exercer uma profissão para a qual não estão preparados, em paralelo com todas as outras do seu dia a dia e ainda com o exercício normal da paternidade. O grau de exigência é elevado e a normalização e respeito pelos limites das crianças e de quem as cuida é essencial. Cumprir com programas pode ser um objectivo a atingir, mas deveremos estar atentos aos custos. Se o trajecto iniciar caminhos de dificuldades fortes para além das impossíveis de evitar, como o isolamento e a falta de contacto e interacção com os amigos, pode ser necessário procurar ajuda. Não se esqueça que o seu filho é quem mais alterações está a ter com este processo e quem menos estrutura tem para as enfrentar. Medo de sair à rua, dificuldades de sono ou apetite, desenvolvimento de comportamentos não habituais, devem ser avaliados com a devida cautela. 

Jovens 

Os Jovens, por sua vez, são uma população especial, com muitas competências para atravessarem períodos de crise. Ainda assim e porque todos têm as suas particularidades, podem surgir desadaptações e ansiedade quanto ao futuro, principalmente nos que se aproximam da entrada na faculdade, sendo necessário termos alguma atenção. 

O isolamento e a diminuição das interacções é uma ambição elevada, numa altura da vida em que o contexto social é o lugar onde existimos com mais intensidade. É inevitável e até benéfico, que possam recorrer às tecnologias para manterem os contactos, pois desta forma conseguem manter activas as amizades e as relações de diversas ordens: o que até agora poderia ser considerado excesso, por parecer comprometer as ligações presenciais e sadias, é actualmente o melhor recurso de que dispõem para poderem manter essas mesmas ligações. 

Teremos de o permitir e aguardar que a serenidade do processo nos possa transportar de novo para uma maior moderação. 

A tendência poderá ser ir para o quarto e interagir pouco com os membros da família, como forma de reorganização.
A atenção dos adultos da casa é importante na monitorização dos exageros, na atenção a alguma desregulação emocional, no surgimento de algum sofrimento. 

A dificuldade de acompanhamento poderá residir na dubiedade dos sinais. Nesta faixa etária nem sempre são claros e objectivos, o que pode suscitar confusão em quem está perto. O diálogo, a presença, o respeito pela individualidade, a liberdade de expressão emocional são fundamentais para o bom desenrolar do processo. 

Adultos 

Já na idade adulta, a faixa etária que tem como função dar alguma protecção aos mais frágeis, os efeitos de tudo isto são essencialmente no peso geral dessa mesma função, ou seja, na gestão do quotidiano. De repente há crianças em casa para ensinar, pais e avós para proteger, empregos para manter, se tudo correr bem, ou para procurar, quando algo correu mal. Há famílias para gerir, com todos os problemas que já existiam antes e que podem até agravar nas mais diversas formas, nomeadamente nas situações mais desestruturadas. É aqui que a busca de orientação pode também ela ser essencial, porque muitas vezes pode ser necessário um ajuste para se recuperar alguma normalidade, que pode por sua vez permitir baixar a ansiedade e seguir em frente. 

Se por qualquer razão fizer parte de algum grupo de maior risco, em termos de situação doméstica, económica, saúde ou qualquer outra situação, lembre-se de que há estruturas de apoio para intervir. O fecho dentro de si próprio, torna-se sempre num lugar de solidão. E se o encontro consigo próprio pode ser um passo fundamental na sua evolução pessoal, tal não é verdade quando existem riscos que podem colocar em causa a sua integridade global. 

Idosos 

Por último e falando dos idosos, sabemos desde o início que são a população
mais sensível à doença, ou seja, é nos idosos que os efeitos da mesma são sentidos com maior dimensão e risco de vida. Motivo por si só suficiente para gerar agitação e medo, que necessita de ser atendido e acautelado. Porém, paralelamente e dependendo da estrutura mental de cada um, poderão também daqui decorrer outro tipo de dificuldades na protecção dos próprios. Já viveram uma vida, já escalaram muitas dificuldades e essa mesma experiência pode causar resistência aos cuidados agora exigidos, pois a sensação que já viveram muitas coisas pode colocá-los num nível falso de protecção. 

Para eles seguiremos as mesmas directrizes, embora adaptadas a uma fase da vida usualmente mais serena.
O diálogo sobre as dúvidas que possam surgir, é importante. A manutenção da rotina, do exercício físico, do cuidado com a alimentação e com a saúde, recorrendo a ajuda profissional, sempre que necessário pois não deixaram de existir as patologias pré-existentes ao novo estado. Devem ainda gerir com cautela a informação diária que consultam. Sendo usualmente pessoas com mais tempo, é fácil assimilarem informação a toda a hora, o que se pode traduzir numa sobrecarga impossível de suportar, até nos que evidenciam uma estrutura mais segura. É por isso, muito importante que procurem outros interesses de ocupação, que podem ser os que já existiam antes ou, na impossibilidade de tal ocorrer, outros. 

Em todas as fases, aceite e acolha o seu processo interno. 

 

Dificuldades do novo desafio

O ser humano está preparado para lidar com adversidades. Para isso possui um precioso recurso interno: as suas defesas. São elas que nos salvam dos acontecimentos que nos põem em risco, no nosso dia a dia: choques, traumas, perdas, várias adaptações a que somos sujeitos, quando algo acontece e nos desvia da normalidade. 

Na maioria das vezes, actuando na exacta medida das nossas necessidades, permitem que consigamos enfrentar os desafios com a capacidade necessária, no entanto outras vezes, quando a exigência se afigura elevada, podemos não conseguir manter o equilíbrio, o que nos poderá transportar para situações de sofrimento elevado. 

O momento que vivemos é difícil e exige de nós um esforço enorme para nos adaptarmos. Surgem inúmeras dificuldades de gestão global, familiar, económica e emocional e não há quem passe incólume a esta situação. O primeiro passo para que tudo possa correr de forma mais evolutiva, é interiorizar as alterações e deixar que os hábitos novos tomem lugar. Sem darmos por isso estaremos adaptados. É importante sabermos escutar o que sentimos e nunca descurar às mensagens que o nosso corpo nos vaitransmitindo. Fingirquenãoestamosasentir eignoraressessinaiséumpassopara agigantar de sintomatologias que queremos controlar. 

Poderão surgir inúmeras pequenas dificuldades, mas dado o carácter da pandemia, existem determinados tipos de manifestações que poderão ser mais frequentes. Iremos falar sobre algumas delas. 

Síndrome de cabana 

O termo remonta a 1900, nos Estados Unidos, e foi usado para identificar alguma repulsa de regresso à civilização, experimentada pelos caçadores que passavam longas temporadas nas cabanas. Há uma retirada drástica do contacto com as outras pessoas, sendo que o regresso pode ser acompanhado de sintomas de stress e ansiedade. Presentemente muitas pessoas passam por esta situação, manifestando, aquando do desconfinamento, sinais diversos como: 

  • Alterações de humor e do estado anímico;
  • Perda de memória e concentração; 

• Sensação de frustração;
• Alterações dos padrões do sono;
• Distúrbios alimentares;
• Ansiedade, inquietação, irritabilidade. 

COMO ACTUAR? 

Encarar esta dificuldade como transitória e entender o distúrbio como passageiro e não estrutural. Existem algumas estratégias de actuação imediata que poderão ser seguidas por forma a reverter o processo com a naturalidade possível. 

Por exemplo, iniciar o desconfinamento de forma gradual e progressiva não esquecendo as regras de protecção aconselhadas. Não será sensato nas primeiras saídas ir a locais muito populosos ou barulhentos, será melhor começar praticando actividades mais perto da sua zona de conforto e mais serenas, pois são menos exigentes e mais toleráveis. Não se esqueça de que o controlo está nas suas mãos. 

QUANDO PROCURAR AJUDA? 

Se os sintomas se prolongarem por mais de duas ou três semanas, deverá procurar ajuda. Se a dificuldade em sair de casa se tornar impossível de transpor, ao ponto de o limitar, utilize a modalidade de teleconsulta, que poderá ser um bom início de intervenção especializada, quer na adequação de estratégias à situação particular de cada pessoa, quer na prescrição de um fármaco ansiolítico, caso se verifique essa necessidade. 

Não adie a solução. O prolongamento da sintomatologia sem ajuda especializada pode rigidificar o medo e o comportamento, sendo mais complexa a sua resolução. 

Transtornos obsessivos 

O transtorno obsessivo-compulsivo é caracterizado por obsessões, compulsões, ou ambas em conjunto. Ao obsessões são ideias ou impulsos recorrentes e persistentes, e as compulsões (ou rituais), são as acções que a pessoa se sente impelida a fazer, para tentar diminuir a ansiedade causada pelas obsessões. 

A maioria dos casos de comportamentos obsessivo-compulsivos está relacionada com o medo e a preocupação excessiva, com danos ou riscos, nomeadamente no campo da saúde e da integridade física. 

Um meio ambiente mais assustador, pode elevar a ansiedade de pessoas que usualmente não apresentema perturbação e nesse seguimento desenvolver sintomatologia obsessiva, devido ao excesso de pressão a que está sujeita. Este transtorno é transversal a todas as idades, e pode surgir desde as crianças, passando pelos jovens, até à idade adulta. Se esta situação se pode manifestar em pessoas usualmente mais tranquilas, o problema agrava-se se a pessoa já sofria previamente da doença, uma vez que vai sentir mais pressão e descontrolo. 

COMO ACTUAR? 

Na medida do possível, rodei-se de calma. Evite a exposição excessiva às notícias
e mantenha-se actualizado uma vez
por dia, não é necessário mais. Os dados fornecidos pela Direcção Geral de Saúde são actualizados apenas a cada 24 horas, e visualizar em excesso as diversas notícias que focam o assunto, vai fazer com que o contacto com a doença seja mais permanente e desinquietante. 

Tente seguir as regras de higiene recomendadas, sem ir além disso. A lavagem das mãos, por exemplo, é fundamental, mas se estiver em casa e não tiver contacto com o exterior, deve fazê-lo com razoabilidade,
e não com frequência excessiva. A sua pele necessita, também ela, de estar saudável. 

Sinta empatia e respeito por si próprio. Todos estamos em dificuldades, todos estamos a passar pela mesma situação. Se almejarmos a perfeição, estamos a ser inimigos de nós próprios e a forçar os nossos limites, logo, aceitar que a situação é difícil é o melhor caminho para nos sentirmos mais tranquilos. 

QUANDO PROCURAR AJUDA? 

Deverá procurar ajuda com um psicólogo, psiquiatra, ou médico de família, se o sentimento de obsessão/compulsão, começar a invadir a sua existência de uma forma mais descontrolada e a sensação de medo e insegurança estiver a ultrapassar os níveis do razoável. Se previamente já sofria do transtorno, deve consultar orientações de acção o quanto antes, com o profissional que usualmente o acompanha. 

Stress/Dificuldades de gestão do dia a dia
A sujeição a uma situação completamente nova e inesperada de pandemia, com regras apertadas e dificuldades de gestão global do dia a dia, coloca- nos perante um desafio que se afigura difícil em todas as dinâmicas da vida. Neste sentido é frequente a sensação de desorganização mental, uma vez que o usual planeamento do nosso quotidiano futuro se encontra suspenso e sujeito a directrizes das organizações de saúde. Esta ausência de fio condutor é um terreno fértil para o desenvolvimento de sofrimento e insegurança, que pode atingir muitas pessoas. 

COMO ACTUAR? 

Manter o seu foco direccionado ao que mais importa na sua vida é um bom princípio para se ir sentindo mais cómodo. Se não conseguimos planear com exactidão uma merecida viagem em família, pode ser que consigamos pensar num plano mais simples, como alguns dias num sítio onde se possa descansar e conviver, longe das tensões que actualmente viajam pelos aeroportos, pelas praias e pelos ambientes nocturnos. 

Olhar por si e pela a sua família com redobrado respeito e cuidado. Todos estão a ser
sujeitos a este inesperado, e não poderemos esperar perfeição de ninguém, sob pena de aumentarmos a nossa frustração e ansiedade. Baixe as expectativas e certifique-se de que não exige, nem de si nem de ninguém, mais do que aquilo que é realmente necessário. 

Mantenha os seus hábitos dentro das possibilidades. A nossa zona de conforto é a nossa casa e as nossas rotinas, a manifestação da nossa individualidade. Deveremos alterar apenas o que for imperativo,nesta fase de adaptação. 

QUANDO PROCURAR AJUDA? 

Deveremos procurar ajuda quando a dificuldade se começa a manifestar sobre a forma de desconforto forte, que pode surgir de diversas formas: irritabilidade, sensação de descontrolo, crises de pânico, mudanças severas do estado anímico. 

Os sinais podem ser inúmeros, e na dúvida, se sente que o sofrimento está de alguma forma instalado no seu dia a dia, peça aconselhamento a um profissional de saúde. O adiamento desta solicitação poderá ser prejudicial, como sempre em qualquer desordem interna, com agravamento inevitável da sintomatologia inicial. 

Sentir desconforto ou medo, é normal e humano. Aceitar e aprender a lidar, é um acto de inteligência e um passo para a resolução 

 

Carla Ferreira 

Diretora de Recursos Humanos

Quarta, 12 de Agosto de 20