Máscaras: Já que temos que as usar, usemo-las bem


Dada a situação da atual Pandemia por Covid, com o aumento de casos de infeção em
todo o mundo, as medidas de proteção vão ter que manter-se por muito tempo mais. O distanciamento social e o uso de máscara generalizado são universalmente aceites como sendo as formas mais eficazes de proteção para nós próprios e para os outros. Temos por isso de nos mentalizar que usar a máscara passará a estar presente nas nossas vidas num período que se estima entre um a dois anos. Em Portugal apenas usamos máscara nos espaços interiores mas crê-se que em breve teremos de usá-la também no exterior. 

No entanto a utilização da máscara por longos períodos pode fazer surgir vários problemas de saúde e por esse motivo temos de nos adaptar e assimilar algumas condutas para que o desconforto se minimize, para evitar problemas de maior gravidade e para que não haja o risco de comprometer e agravar outras situações já existentes. 

No presente momento e dado o afastamento das unidades hospitalares por receio de contágio acentua-se o alerta para que não deixe fora de controlo a sua situação clínica evitando que as doenças crónicas se possam complicar ou mesmo tornar fatais. 

Referimo-nos a doenças como a diabetes, a hipertensão arterial, as doenças cardíacas, sendo estas as mais frequentes, há a necessidade de se fazer a vigilância regular e não adiar a ida ao médico, muito menos suspender a medicação e/ou os tratamentos. Há toda uma disciplina e rotina que é imprescindível manter. 

Os auto-cuidados devem ser intensificados e como tal as teleconsultas com médico ou com enfermeiro, poderão ser uma alternativa, evitando-se deslocações e reduzindo assim os riscos e contactos. 

Da experiência clínica que tivemos ao longo destes últimos meses e com base nas situações mais frequentes que nos chegaram, damos neste artigo um conjunto de recomendações práticas que serão decerto de muita utilidade para todos, nos próximos tempos. Em relação à máscara, use o modelo que lhe seja menos desconfortável. 

A impressão e desconforto pela sensação de oclusão são as queixas mais frequentes, por causarem calor, pelo suor e sensação de que se respira mal e porque dificulta a comunicação pois oculta a expressão do nosso rosto e o sorriso. Aspectos que tornaremos a abordar neste artigo. 

Uma das queixas mais frequentes do uso continuado da máscara é a dor de garganta. Esta dor tem sido muito frequentemente confundida com os sinais de infeção pela Covid-19 e faz com que se consulte a linha SNS24 e que ou se marque uma consulta médica. Esta dor de garganta deriva da secura das mucosas do nariz, boca e faringe e é muitas vezes agravada pelos sintomas do refluxo do ácido do estômago aumentado também nas actuais circunstâncias pelo stress que esta pandemia trouxe às nossas vidas. São também frequentes a secura dos lábios e as infeções fúngicas da boca e da língua. 

Observamos muitas destas situações e que são muitas das vezes facilmente controladas com o ensino de medidas de higiene simples que devem ser adoptadas no quotidiano tornando-as rotina, tal como lavarmos os dentes, bochecharmos várias vezes ao dia a boca com água morna com sal e se tal não for possível pelo menos com água e ao levantar e deitar repetir fazer gargarejos e lavar também as narinas. Beber ao longo do dia cerca de 7 copos de água e incluir nas refeições diárias alimentos que hidratem, incluindo chás, sumos, batidos, frutas e legumes, sopas e saladas cruas devidamente lavadas. 

É natural que com o uso de máscara se sinta mais cansado. É natural que o ciclo da respiração demore mais - ao longo do dia concentre-se nos movimentos respiratórios. Demore mais tempo na inspiração e expire devagar. Faça várias vezes ao dia inspirações profundas. 

Em relação à oclusão que a máscara provoca , a voz é muitas vezes atingida e desgastada, não só pelos aspectos da desidratação que atrás referimos, mas pelo esforço vocal necessário para que nos entendamos. A máscara vem afetar a forma de comunicarmos através do rosto - quando falamos expressamo-nos e todo o rosto comunica e agora sem a ajuda das expressões faciais é mais difícil fazermo-nos entender. Por outro lado é difícil pronunciar bem com o uso de máscara e a voz torna-se menos nítida. Profissionais que tenham que usar a voz durante o dia de trabalho tendem a falar mais alto o que aumenta o cansaço. É necessário passar a falar pausadamente e vocalizar bem. 

Surgiram muitas situações de infeções urinárias agudas. Um dos principais fatores foi a desidração, por se ingerir menos água com o uso da máscara. 

Recomenda-se que de hora a hora se faça um intervalo para retirar a máscara e beber um copo de água. 

Outros aspectos nefastos do uso da máscara e que são muito frequentes, principalmente nos profissionais de saúde são não só devido à compressão dos elásticos, como a alteração da mímica do rosto, que provocam ao fim de algumas horas dores, tendinites , espasmos do rosto, cervicalgias e agravam a disfunção da articulação tempo-mandibular. Recomenda-se uma pausa de 4 em 4 horas e exercícios de relaxamento diários. 

Muitas pessoas têm tido alterações da pele ou agravamento de situações devido ao uso da máscara (acne, dermatites, rosácea e foliculites). Damos alguns conselhos para o dia a dia: 

Pela manhã limpar a pele com um sabão hipoalérgico suave e aplicar um creme hidratante não comedogénico. Não devem ser usados produtos irritantes como o ácido glicocólico ou o retinol. A oclusão juntamente com o suor aumentam a capacidade de irritação. Não deve ser usada maquilhagem, sobretudo na área coberta pela máscara. Usar protector solar se estiver no exterior. 

À noite limpar bem a pele. Evitar fazer exfoliantes. Hidratar bem a pele. Eleger as máscaras de algodão (100%) para evitar as lesões. Substutir com muita frequência a máscara. Retirar 

a máscara quando se está só e durante 15 minutos de 3 em 3 ou de 4 em 4horas.. Hidratar os lábios pelo menos de manhã e à noite.


Dra. Fátima Lorvão, Médica de Medicina Geral e Familiar na Policlínica Central da Benedita

Quarta, 09 de Dezembro de 20